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domingo, 29 de junho de 2014

NÉLSON RODRIGUES E SEU COMPLEXO DE VIRA LATAS-VOLTA NÉLSON, VOLTA!

AH! NÉLSON RODRIGUES! QUE FALTA VOCÊ FAZ NESTA COPA DO MUNDO NO NO BRASIL!

Quanta falta você faz ao Brasil de hoje, em meio a tanta petulância enrustida de nacionalismo desenfreado e sem base moral!
Em meio a tanta arrogância e desamor ao Brasil, entre tantos imbecis ululantes, da mais pura e estapafúrdia covardia ideológica, religiosa e moral! Volta Nélson volta!
Vem ver a copa com a gente, vibrar nas esquinas e botecos, na sua incansável mania de fazer odes ao óbvios e poesias cheias de  sabores cáusticos, à maldade oculta, a depravação, os desejos sádicos e a falsa piedade de cada um de nós!
Volta Nélson...vem ver o resto da copa no brasil, você que tanto pediu por ela, para lavar a alma da Brasileirada órfã de 1950!




NELSON RODRIGUES-COMPLEXO DE VIRALATA.
COMPLEXO DE VIRA-LATAS
26/05/2014
Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram* e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética.
Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo.
A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar.
Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1.
E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: — “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção.
Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança.
Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo!
Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo.
Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo.
Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção.
Em suma: — temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?”. Eu explico.
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.
* Última crônica antes da estreia do Brasil na Copa de 1958.
Publicado originalmente em Manchete Esportiva, 31/5/1958






O TIME NACIONAL TEM QUE SE ACHAR O MELHOR DO MUNDO

Amigos, tenho conhecido o que os amigos chamam, com a maior natu-ralidade, de “a besta”. E ele tem um tal hábito de ser chamado assim que, certa vez, disca para a namorada e começa: — “Norminha? Aqui é ‘a besta’.” A própria namorada o apresentou: — “Papai, aqui é ‘a besta’.” O velho não estranhou. Achou normal ter, como genro, “uma besta”.
 Dirão vocês: — “Isso é literatura!” E se o fosse, não seria demérito. Mas eu digo que esse rapaz não podia ser apontado, não como “um brasileiro”, mas como “o brasileiro”. Pois bem. Um dia, vou ver um colega em outra redação. E, lá, quem vejo eu, datilografando uma crônica sobre o escrete. Também os companheiros o chamavam de “a besta”.
“A besta” podia se considerar um brasileiro autêntico. No fundo, no fundo, somos assim. O brasileiro não acredita em si mesmo. Se o chamam de “a besta”, como tal se considera. Na minha crônica de ontem, escrevi: — “O brasileiro ou acredita em si mesmo ou cai de quatro.” Por isso, repito que o problema de Coutinho não é tático, nem técnico. É, se assim posso dizer, psicológico.
Para a seleção render cem por cento, ou mil por cento, precisa acreditar no Brasil. Essa é a primeira providência. Segunda: — acreditar em si mes-mo. E mais: — o time nacional tem que se achar o melhor do mundo.
Bem sei que, em nossa época, o cronista-patriota causa um divertido horror. Quantas vezes nós, cronistas, falamos, com o maior desprezo, em patriotada. Sou um dos poucos que aceitam a patriotada com a maior satis-fação. Outro dia, um cretino fundamental me chamou de patriota. E, real-mente, quando se trata do time nacional, me sinto de esporas e penacho.
E, no entanto, os jogadores brasileiros já acreditaram no Brasil. Foi na minha pré-adolescência. Era o tempo de Luiz Vinhais, patriota de alto a baixo. Lembro-me de uma partida internacional que houve aqui.
Era o Brasil com não sei quem, provavelmente a Argentina. Ou seria Uru-guai? Começa a batalha e o Brasil estava jogando sem alma, sem paixão. O adversário fez um gol. Nem assim reagimos. Pouco depois, novo gol. Acabou o primeiro tempo, com o Brasil perdendo por 2 a 0. Eu, no meu canto, via aquilo como a progressão fulminante da catástrofe.
Mas, no vestiário, estava Luiz Vinhais, ventando fogo. Ergueu o gesto inspirado e apelou para o patriotismo. Era como se o escrete fosse o próprio Brasil. 
Abriu uma bandeira da Pátria. Fez cada jogador beijar a bandeira. Um dos craques debulhou-se em lágrimas, como se dizia antigamente. E diz Luiz Vinhais, com o olhar vazando luz: — “Podem ir, porque vamos vencer.” 
Não deu outra coisa. Esmagamos o adversário. Cinco a dois foi o escore da nossa vitória. 
Os cretinos fundamentais poderão dizer: — “Ridí-culo.” 
E daí? Com um mínimo de ridículo não há herói, não há santo, não há profeta.
Publicado originalmente em  O Globo, 23/7/1977.

PESQUISA: CARLÃO-SAM


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